Gramática

Gramática é tudo!!! — É?

Ensinar a escrever kanji no papel no início é como dar aulas de canto para uma criança. Só que com um detalhe: ela não sabe falar porque ainda tem 1 ano de idade.

Aprender kanji de forma isolada é que nem aprender a tocar piano, só que começar a estudar química para entender as propriedades do material usado na confecção das teclas.

Você quer aprender a tocar ou saber do que é feito? são duas áreas diferente.

Aprender a falar construindo frases com base no conhecimento da gramática é como aprender a dirigir apenas lendo o manual, ou seja, sem nunca entrar no carro.

Mas os japoneses aprendem assim na escola, não é?! É, mas a diferença é que eles já sabem falar.

Depois que você souber falar, fique a vontade para aprender essas coisas.

 

Por que muitos começam a aprender através de gramática?

Porque parece ser o caminho mais rápido, porém é um caminho com mais incertezas.

Aprender uma regra gramatical fará com que você consiga na teoria usá-la em diversas situações, ou seja, guardando uma quantidade pequena de informação no cérebro, te possibilita muitas coisas. É como compactar um arquivo no computador, Porém com três problemas:

  1. Nem sempre funciona, na verdade 50% das vezes está errado, pois existem exceções, e aprender as exceções fará com que você tenha que armazenar muita informação, o que eliminaria a vantagem principal que é a de ir pelo caminho mais rápido guardando menos informação. É uma chance muito grande de estar errado (A compatibilidade é baixa).
  2. O tempo que você leva para descompactar, quero dizer, processar a informação para criar a frase, é grande.
  3. Devido ao segundo problema, só funciona para a fala, não para a compreensão.

Resumindo: Desta forma, você em menos tempo talvez consiga falar mais coisas, porém como um robô. Não sendo natural, demorando muito e errando muito.

Quando você constrói uma frase com base em regras gramaticais, você não tem 100% de certeza de que aquilo está certo. São línguas diferentes, e você não sabe se aquilo é dito, se realmente é desta forma e com estas palavras que os nativos falam. É por isso que não soa normal, especialmente no japonês.

Se um japonês aprendesse português deste jeito, ele falaria mais ou menos assim:

O estômago diminuiu mas a comida alta é.” (isso se ele souber que “estômago” é do gênero masculino e “comida” feminino, o que é muito difícil para um estrangeiro, já que para isso não tem regra, ou é ou não é!).

Na verdade gênero é um ótimo exemplo de como nós aprendemos a falar nosso idioma nativo sem nem saber o que é isso. Ou é ou não é.

Frase correta: Estou com fome mas a comida está cara.

 

Mas como então eu consigo falar algo que é 100% confiável de que está certo e de que é normal?

Simples: Ouvindo de um nativo.

Quando você ouve uma frase de um nativo, pode ter certeza de que ela está 100% correta. E se não estiver, é melhor errar da forma que os nativos erram do que como o cara da frase lá de cima. Por exemplo: um estrangeiro falou: “Vamos indo logo antes que a chuva nos pegue.” ou “É para mim comer“.

(O correto seria: “Vamos logo antes que a chuva nos pegue.” & “É para eu comer”).

São erros quase imperceptíveis e não afeta na comunicação, você entenderá absolutamente tudo o que ele disser.

Ouvindo uma frase de um nativo, de um material de estudo confiável, lendo um texto feito por um nativo, etc, essas são formas de aprender a falar uma frase com 100% de chance de estar correta.

Outro ponto é que você não pensar para falar, simplesmente sai naturalmente. A informação que está no seu cérebro para ser capaz de falar aquela frase é pequena. Você simplesmente fala “Estou com fome mas a comida está cara” quando está com fome mas a comida está cara. Você não precisa pensar em conjugar o verbo “estar” na forma do presente indicativo da primeira pessoa do singular e juntar com a preposição “com” e com o substantivo “fome” e a conjunção coordenativa adversativa “mas” e lembrar o gênero da palavra “comida” para então decidir o artigo correto “a” e a terminação das demais palavras seguintes.

Isso é processar a informação e faz com que consuma muito tempo de CPU. E além disso, não sobra tempo para pensar no assunto, naquilo que você quer falar. Você vai estar tão ocupado processando informação para criar a frase que vai até esquecer do que vocês estavam falando. E terá que pensar nisso depois de fazer a frase.

Mas, se eu tiver que saber todas as frases possíveis para falar o idioma, não será muita informação e gastará muito tempo!?!? Saber todas as frases existentes no idioma não é impossível !?!!

Quando nós aprendemos desta forma, através de sentenças completas, com o tempo você começa a entender o significado e o uso daquela palavra ou estrutura (talvez inconscientemente). Seu cérebro começa a enxergar o significado, vai se enraizando naturalmente e as possíveis dúvidas vão se eliminando. Depois de um tempo, você é capaz de saber onde é usado e onde não é. É como saber por experiência em vez de conhecimento.

Depois de muito tempo, quando você já estiver avançado, você conseguirá construir suas frases com 100% de certeza da mesma forma que no idioma nativo.

Então não é necessário aprender todas as possíveis frases de um idioma, pois chega um momento que você já sabe como usar aquelas palavras, estruturas e partículas naturalmente. Apesar de parecer o caminho mais longo, você não acha que é mais rápido?

Idioma não é conhecimento, é habilidade.

 

Tudo tem que estar em equilíbrio, no entanto.

Da mesma forma que equilíbrio entre conhecimento e experiência na profissão, porém, para cada área de conhecimento existe uma medida certa. No aprendizado de idioma (e qualquer outro) você não pode ser radical e fazer apenas uma coisa específica. Mas dar uma grande atenção à gramática não é correto e dar nenhuma atenção também não.

Mas atenção, ao estudar através de sentenças e textos ao invés de gramática, você deve saber o que aquela frase significa, você deve de alguma forma ter a tradução das palavras nela. Saber pelo menos onde está cada palavra dentro da frase e o que significa, mas sem se preocupar com partículas por exemplo. A dúvida vai corroer a sua mente, você vai ficar muito curioso em saber o que significa aquilo e por que aquilo está ali. O meu conselho é: se quiser saber, vai lá e procura saber só para matar a curiosidade. Provavelmente você não vai encontrar a resposta e vai acabar não compreendendo aquela palavra ou partícula. Mas não fique muito preocupado com a dúvida. Se você pegar mais frases que tenha aquela partícula ou estrutura, futuramente você poderá repetir a busca e compreender melhor, mas as vezes nem é necessário, pois automaticamente começamos a compreender.

 

Exemplos:

Você não precisa saber que tem que colocar o verbo “matsu“(esperar) na forma “te” e depois acrescentar “iru” para conjugar no gerúndio, e então falar “matteiru” (esperando). Simplesmente memorize que “matsu” é esperar e “matteiru” é esperando!

Trate como se fosse duas palavras diferentes!

Na verdade, eu sempre soube que “matte” é “espere”, antes de começar a aprender japonês, somente vendo anime, e sabia como usar, só depois fui descobrir que é um verbo e que está na tal da forma “te”.

É isso que a gente faz muitas vezes no português também, tratamos algo como se fosse uma palavra diferente e não uma palavra derivada de outra.

 

Não se pergunte o porquê de tudo.
Por exemplo, você provavelmente sabe escrever a palavra “fácil” em português corretamente certo? Mas você precisou saber que o acento agudo no “a” está ali porque é uma paroxítona terminada em “L”? ou o porquê do prefixo “super” ou “semi” não ter acento na sílaba tônica?
É mais fácil você saber que essas palavras tem ou não acento do que saber as regras gramaticais responsáveis por isso. Além disso, reforço a dizer que A língua não se adapta à gramática, e sim a gramática que se adapta a língua.
Já parou pra pensar que aprender essas regras não é algo tão interessante no português?(a menos que você seja um entusiasta da linguística) Porque então você acha tão interessante aprender gramática na língua que você não fala fluentemente? Talvez porque você ache que isso é necessário para aprender a falar fluente. Mas não é, afinal, você não precisou da gramática para aprender português.
Nós aprendemos isso na escola porque nós já sabemos falar.
Aprender essas coisas acima de tudo, não prejudica, mas atrasa.
Você poderia estar aproveitando melhor o tempo.

Se você fizer perguntas de gramática japonesa complexas (essas que você aprende) para um japonês, ele não vai saber responder todas, mas ele fala perfeitamente e fluentemente. Da mesma forma que se alguém fizer perguntas de gramática portuguesa à você, mesmo você falando e escrevendo bem, não necessariamente conseguirá responder.
Ex:
ditongos, hiatos, sujeito, predicado, antítese, interjeição, locução adverbial, pronomes oblíquos,

Das palavras destacadas (em maiúsculas), todas são advérbios ou locuções adverbiais, exceto:
– PELA MANHÃ, comi um pão de queijo.
– Giovana NÃO viajou.
– Precisamos de MEIA folha.
– Estou MEIO gordo.

Independente da pergunta e da resposta, você compreendeu quando eu disse “pela manhã, comi um pão de queijo” ou “Precisamos de MEIA folha”, não é?
Você, em português, é capaz de falar estas frases apenas porque sabe o que é locução adverbial? Se não soubesse, não saberia falar?

Obs: resposta correta: “Precisamos de MEIA folha” (porque “MEIA” é numeral)

Você aprendeu na escola que não se diz “Eu é jogador de futebol” e sim “Eu sou jogador de futebol”?
Não, você não precisou saber conjugar verbo, você não precisou saber regra gramatical nenhuma, você nem se quer sabia o que é regra gramatical nessa época. Você falava certo porque já ouviu aquilo antes, ou algo parecido, e só por isso.

Não que a gramática seja inútil, mas ela existe pra você entender como funciona e não para aprender à falar.

Os arqueólogos estudam os vestígios para saber como as pirâmides do Egito foram construídas e não para saber como construir uma pirâmide.

 

Material de estudo VS situação real

Não tem nada mais gratificante no aprendizado de uma língua quando compreendemos em tempo real uma frase ou palavra quando a ouvimos numa situação real, ou seja, fora de material de estudo.

Exemplos de material de estudo: apostilas, artigos, vídeos de pessoas ensinando a língua, seu professor falando, simulação de situação real em vídeo, etc.

Exemplo de situação real: Vídeo de um programa de TV nativo, pessoa real conversando, interação por exemplo com um jogador de um jogo online (MMO) nativo, mangá, anime, jornal, página de notícias, etc.

Situação real: Tudo nativo, nada referente à ensino de idioma.
Material de estudo: que seja referente ao ensino do idioma.

No começo eu achava isso que eu vou falar a seguir, uma coisa de outro mundo, surreal. Era realmente estranho, talvez coincidência mas quando há muitas coincidências começa a ficar estranho.

Sempre que estudava algo, logo aquilo aparecia em uma situação real. Ou no mesmo dia, ou no dia seguinte, mas logo depois de ter estudado. Eu “nunca” tinha ouvido esta palavra antes na minha vida, mas depois de estudar ela, ela apareceu misteriosamente.

Talvez a resposta para isso é clara. Essa palavra pode já ter aparecido pra você mas ela passou completamente despercebida, já que você não sabia o significado.

Mas o contrário também acontece.

Acontece que no momento em que eu ouvi aquela palavra, eu tenho a impressão de que já ouvi antes e várias e várias vezes, mas não sei o significado dela.

Aí então eu vou e pesquiso, e geralmente compreendo no mesmo instante, já que já tinha presenciado-a em diversas situações.

Dado isso, percebo que é necessário duas coisas para compreensão de algumas palavras: Ter a estudado e ter a experimentado em diversas situações.

Tem palavras que apenas por experiência você acaba conhecendo o seu significado, e às vezes nem sabe como seria em português, pois você nunca a traduziu nem estudou ela. Esse é a melhor forma de se aprender uma palavra.

 

Existe um argumento muito utilizado que é o seguinte: “Conheço muita gente que aprendeu com gramática.” ou “Para saber se o método desta escola é eficiente, basta apenas olhar para nossos alunos formados e ver que eles conseguiram”.

Quando alguém estuda através de gramática, ela não se limita a fazer somente e especificamente isso sempre. Ela não se tranca para qualquer outra coisa, ela acaba tendo contato com outros métodos. Afinal ela também vê conteúdo nativo por exemplo. Ou seja, involuntariamente acaba colocando informações no cérebro através de outras formas. Formas estas que sim vão impulsioná-lo para frente.

Então, muitos vão para frente porque não se limitaram a ficar só na gramática, mas nem sabem disso, e o mérito fica para a gramática.

 

Conclusão

Este texto não é para mostrar como aprender um idioma, ele trata apenas de alguns assuntos que nós, estudantes de japonês e outros idiomas nos deparamos.

Se fosse falar sobre método, teria que incluir o SRS (Sistema de repetição espaçada) –  Anki, falar sobre tempo x estudos, imersão, etc.

Compartilhe nos comentários se você já se deparou alguns dos exemplos citados acima ou viveu alguma situação similar.

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